A Força quente do Dragão

A Força Quente do Dragão!

Nunca na história do Atlético Clube Goianiense, o tradicional clube de futebol do Bairro de Campinas esteve tão forte como uma instituição esportiva de ponta do futebol goiano. Forte porque o clube ganhou nesses últimos anos projeção nacional e se consolidou como um clube de grande estrutura do futebol nacional. Seu Centro de Concentração e Treinamento passou por duas avaliações internacionais e é considerado padrão FIFA. Devolveu ao seu torcedor o Estádio Antônio Accioly completamente renovado e com condições para sediar jogos do calendário nacional, oferecendo conforto aos torcedores e profissionais da imprensa que vão aos jogos. Hoje o Estádio Antônio Accioly é o maior orgulho do torcedor atleticano, simples, modesto e ao mesmo tempo moderno e confortável.

Mas o que mais interessa é o que o clube vem fazendo dentro das quatro linhas do futebol. Em 14 anos ele saiu de uma segunda divisão do campeonato goiano para a primeira divisão do campeonato nacional. Saiu de uma modesta posição 68 do ranking nacional e chegou até a posição de número 18 figurando entre os 20 melhores do país por cinco anos consecutivos. Hoje é o 25º colocado. Após várias crises administrativas e financeiras que afetaram drasticamente seu futebol, o que mais se ouvia pela cidade, quando o clube venceu a segunda divisão do Campeonato Goiano em 2005, era: até quando o Atlético iria se manter em cima até cair novamente e amargar anos de jejum sem títulos? Mas nem mesmo os seus tradicionais torcedores imaginavam que o clube iria voltar tão forte dentro e fora de campo.
Com uma administração forte, coesa e fechada o Atlético se profissionalizou muito e construiu uma política administrativa/financeira e técnica para gerenciar o clube e o futebol com pessoas competentes e que abraçaram o projeto do clube. Wilson Carlos, Valdivino de Oliveira, Jovair Arantes, Eduardo Mulser, Serjão, e, principalmente Adson Batista transformaram o Atlético em um clube viável e forte. Não podemos esquecer de Álvaro de Melo, Zenha, Odilon que também iniciaram com os demais, mas faleceram durante o processo de retomada do clube campineiro. Com uma base forte montada entre 2006 e 2007 o clube ganhou quatro títulos do estadual e dois títulos nacionais, da Série C, em 2008 e da Série B em 2016 e chegou à série A por duas vezes, sendo que na primeira vez conseguiu se manter por três temporadas e na segunda por uma. Fez boas campanhas da Copa do Brasil onde eliminou clubes como Fortaleza em 2007, quando este figurava na série A, Grêmio em 2008 e Palmeiras em 2010, quando o Dragão chegou até as semifinais da competição.

Na Série A, o Atlético fez jogos memoráveis como a vitória por 2×1 sobre o Campeão Brasileiro de 2010, o Fluminense. Neste jogo o Dragão terminou com um jogador a menos e fez o gol da vitória de virada aos 46 minutos do segundo tempo. Flu tinha Deco, Conca, Washington que jogavam muito e disputavam o título daquele ano com o Corinthians, que também pedeu para o Atlético em dois jogos memoráveis. O primeiro no Serra Dourada. O Corinthians era o líder naquele momento e o Dragão o lanterna da competição. Mas o Atlético não tomou conhecimento do Timão e venceu por 3×1 numa noite inspirada do time rubro-negro. No jogo de volta em São Paulo com Pacaembu lotado de corinthianos, o Atlético começa perdendo o jogo logo no primeiro minuto de jogo, mas de forma espetacular consegue uma virada histórica chegando a estar goleando o time paulista por 4×1, mas permitiu a reação paulista e o placar final ficou 4×3 para o Dragão numa tarde inspirada de Robston, Pituca, Adriano, Marcão, Juninho e Anailson. Neste mesmo ano de 2010, o Atlético venceu o Palmeiras duas vezes por 3×0 sendo o primeiro jogo no Pacaembu em uma noite de festa de aniversário do Alve-verde paulista. Um verdadeiro “presente de Grego” do clube goiano para o aniversariante em noite inspirada de Elias que fez os três gols do Dragão. No jogo de volta no Serra Dourada, o Dragão brigando para não cair para segunda divisão, aplicou outra goleada de 3×0 no Palmeiras com tarde inspirada do volante Robston que comandou a vitória com dois gols marcados.
Em 2011 quem não se lembra dos 2X0 contra o bom time do Botafogo no Serra Dourada? Dois gols de Felipe no início da partida e bola na trave na cobrança de falta do goleiro Márcio. E dos 3×0 no São Paulo, também no Serra Dourada? Zagueirão Gilson abre o placar, Felipe faz o segundo em jogada espetacular de Rafael Cruz com Anselmo que faz Rogério Ceni fazer defesa e bola acertar o travessão, no rebote Felipe marca e Anselmo fecha o placar com cobrança de pênalti. E aquele 4×1 no Flamengo jogando no Rio de Janeiro? Pituca, Juninho, Anselmo e Diogo Campos chegaram a fazer 4×0 no invicto Flamengo até aquele momento. O Fla descontou no finalzinho da partida. 2011 foi um ano de ouro para o Dragão que garantiu participação na Copa Sulamericana de 2012 e encerrou o campeonato com uma goleada de 5×1 sobre o América Mineiro.

O Atlético tinha uma boa base de jogadores que vinham jogando juntos desde 2007 e 2008, quando venceram o Campeonato Goiano e a Série C do Brasileiro, respectivamente. Base que conquistou o acesso para elite do futebol brasileiro em 2009. Com um esquema ofensivo e de toques refinados, o clube envolvia os adversários. Tinha no Gol o goleiro Márcio que ficou no clube por 10 anos e fez belíssimas partidas, na zaga marcaram as presenças de Jairo e Gilson, este último ainda veio fazer dupla com Gil, Anderson e Marco Antônio. Na lateral direita Rafael Cruz se consagrou e se firmou como principal da posição nos últimos anos. Na esquerda passaram muitos, mas se for para destacar quem marcou, para mim, foram Ernandes e Tiago Feltri na série A.
E o que dizer do meio campo? Volantes “pés-de-ferro’ como Agenor, Marino e Jair se misturavam aos rápidos e habilidosos Weslley, Pituca e Robston. Weslley era versátil no meio e na lateral direita, em 2007 fez parceria incrível com Dida pela direita e foi desse lado que surgiu o passe para Anailson fazer o gol do título daquele ano. Pituca e Robston. Os majestosos, como jogavam bonito. Há quem diga que eles deslizavam pelo gramado jogando futebol como se dança uma valsa no salão. Como dizia o narrador Edson Rodrigues: “O Atlético joga por música, é uma orquestra esse time do Atlético”. Eles desarmavam e partiam para o ataque, contra-ataque fulminante ao adversário. Passes e lançamentos precisos e uma recomposição fantástica. Eram altos, magros e desengonçados. Chegaram a apelidar a dupla de Torres Gêmeas, só que essas não teria atentando no mundo que viessem coloca-las ao chão.
Pituca era mais contido e se resguardava mais nas palavras, mas Robston era destemido, aguerrido e falastrão. Teve uma importância enorme na autoestima da torcida que vivia humilhada pelas rivais. Jogador que bate no peito, chama a responsabilidade, encara os adversários com “sangue nos olhos” como ele mesmo dizia. Provocava os rivais e mandava a torcida adversária fazer silêncio para ver o Dragão jogar. Mas não ficava só nas palavras, dentro de campo ele resolvia a parada e era o mesmo das palavras. Colocava raça e coração nas chuteiras. Polêmico e de uma formação social complexa de um jovem negro da periferia de Brasília, ele sofreu com os golpes da vida como a maioria dos jovens de mesma origem e cor sofrem num país que ainda não aprendeu a cuidar de sua juventude pobre das periferias das grandes cidades. Saiu de forma ruim do clube e foi jogar num clube rival, deu declarações infelizes e magoou parte da torcida que o tinha como ídolo. Mas que sejamos justos com tudo de bom e importante que ele fez e foi para a história do clube, era um líder dentro de campo, um símbolo de raça e determinação. Não baixava a cabeça diante dos grandes clubes de futebol, não estava alí para bajular grandes jogadores, encaravam todos com muita raça e vontade de vencer e por isso foi grande vencedor. O Atlético de Robston tinha raça e “brio na cara”.
Para completar o meio de campo que levou o Atlético parra a elite do futebol brasileiro, quero destacar três meias espetaculares: Lindomar, Anailson e Elias. Lindomar iniciou e encerrou a carreira jogando pelo Dragão. Legítimo Prata da Casa, ele jogou as séries C e B com maestria. 39 anos de muita habilidade, força e inteligência. Deu passes precisos, cruzamentos e lançamentos que pareciam jogar com as mãos devido a perfeição e corria como um menino em início de carreira. Tem amor, história e identidade com a camisa do Atlético Goianiense.
Anailson chegou por meio de uma promoção da Federação Goiana de Futebol e teve seu contrato renovado diante da sua adaptação ao clube e à torcida. Baixinho, canhoto e rápido, super habilidoso de jogadas que deixavam os adversários tontos em campo. Foi comparado pelo René Simões a um Mico Leão Dourado por se tratar de jogador em extinção no futebol mundial, segundo René Simões. Para mim, o melhor camisa 10 do futebol goiano das últimas décadas. O jogador mais habilidoso com a bola nos pés e sabe jogar sem a bola também se posicionando de forma inteligente em campo. Anailson se tornou ídolo, hoje mora em sua cidade natal, Estreito do Maranhão, mas é visto sempre em jogos importantes do Dragão e veste a camisa rubro-negra como time do seu coração. O “Pequeno Gigante” emociona a torcida que morre de amores por ele e sente saudades de suas jogadas e gols cinematográficos. Além do golaço marcado contra o rival Goiás na final de 2007, foi dele o primeiro gol da vitória contra o Vasco no Serra Dourada em 2010 que tirou o time da zona do rebaixamento. Anailson saiu do banco para dar início à reação atleticana no campeonato.

Elias, o canhota de ouro. Nunca errou um pênalti com a camisa do Dragão, não sei se com outro clube também. Mas no Atlético Elias brilhou com a 10, deu passes precisos, cobrou faltas com maestria e chutes certeiros de fora da área. Calou o Pacaembu lotado de palmeirenses em plena festa de aniversário do alve-verde: três gols de Elias. Elias chegou no Atlético como reserva do Anailson, foi humilde, soube reconhecer o melhor momento do baixinho e soube aproveitar as chances que chegaram com as contusões de Anailson. Foi um dos que brilharam na Série C, B e A. Jogou contra os grandes e contra os pequenos com a mesma maestria. Hoje, mesmo jogando em um rival, não causou mágoas na torcida, talvez pela passagem discreta no rival.
E para fechar a base de ouro que levou o Atlético aos patamares de clube forte de hoje, chegamos aos atacantes e quero aqui destacar os dois que ficaram desde o goiano e as três séries no Dragão: Juninho e Marcão. Com eles jogaram Anselmo, Felipe, Rivaldo, André Leonel, Diogo Campos, Ricardo Jesus, entre outros. Mas Juninho e Marcão sempre estiveram presentes na ascensão do time da terceira para primeira divisão. Juninho era rápido e muito ofensivo, partia para dentro dos adversários, abria o jogo pelos flancos em diagonal ou retilíneo pelas laterais ele chegava com muita facilidade para cruzar ou finalizar em jogadas de linha de fundo. Fez muitos gols decisivos e era matador, não se apavorava com o goleiro ou zagueiro adversário. Fez uma partidaça contra o Santos de Neymar, Arouca e Ganso no Serra Dourada que viu Juninho, Agenor e Anselmo em noite inspirada. Dragão 2×0 no Santos pelo Brasileiro de 2011. Última atuação inesquecível de Juninho foi no jogo que livrou o time do rebaixamento para Série C em 2013. Com 20 mil torcedores no Serra Dourada, o Dragão venceu o Guaratinguetá na última rodada da Série B de 2013, Juninho abriu o placar de cabeça após cruzamento de Ricardo Jesus e depois deu o passe para o mesmo Ricardo Jesus fechar o placar e sacramentar o time na Série B daquele doloroso ano para o Dragão.
Marcão chegou para fazer testes no Atlético, humilde e sem passagem pela base, o jogador era um pouco desengonçado, alto e de muita raça, não tinha bola perdida para Marcão. Fez gols justamente por acreditar na jogada, às vezes roubando do zagueiro, às vezes evitando a saída da bola que já estava rente à linha de fundo. Fazia gols que só Marcão fazia, que só Marcão acreditava na jogada, mas errava gols incríveis também, talvez pela falta de uma base em sua carreira. Mas Marcão encarou também os grandes times, fez gols contra os grandes, calou o Pacaembu lotado de corinthianos. Fez o gol contra o Palmeiras no Serra que levou o jogo para as penalidades na Copa do Brasil. Foi artilheiro do Goianão, do Brasileiro Série C e B e fez muitos gols na A. Marcão tá na história da base que devemos lembrar para sempre no Dragão.

Portanto, a base Márcio, Gilson, Jairo, Rafael Cruz, Pituca, Robston, Anailson, Elias, Juninho e Marcão estiveram com o clube da Série C até a Série A e por conta dessa base o Atlético voltou a ser forte, a dá alegria a sua torcida e ser um dos clubes que mais cresceu nos últimos anos no Brasil. Como Técnico vou destacar Artur Neto, por que foi ele que trouxe essa concepção de time ofensivo e de toques refinados que o Atlético adotou como concepção de futebol defendida por Adson Batista, grande diretor de futebol. Fora de campo a torcida só tem a agradecer. A torcida que mais cresce e que se organiza e tenho que ressaltar a ACAD na luta pelo Accioly e a Torcida Dragões Atleticanos TODA pelo lindo trabalho que fazem nas arquibancadas e no dia a dia do clube.

Ubiratan Francisco de Oliveira
Geógrafo e Professor Universitário